segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Meu parto normal


Foram muitas as horas de trabalho de parto.
Trabalho de parto é mais difícil que trabalhar.
Para parir não existe currículo, nem entrevista.
Cada parto seu vai ser um novo trabalho, do zero.
Cada bebê vai te exigir mais que um chefe novo.
E você obedece porque sente desejo de obedecer.
E você chora porque a dor transborda por cada poro.
E os poros não são suficientes para suar a dor...
Então você sua com os olhos cheios de força...
E sangra pedindo às Deusas que não te abandonem.
As contrações chegam para te quebrar os ossos, 
te moer a carne, te mostrar que o corpo humano 
pode muito além do limite que você imaginava.
E você vai morrendo, mas continua viva...
E você vai sangrando, mas continua de pé...
e agacha, e chora mais... e uma mão sagrada
surge quente para te aliviar com uma massagem,
assim como a água quente do chuveiro, que te redime
dos teus pecados enquanto você chora pelo fim...
Quando você já aceita morrer a alma já que o corpo
não vai perecer por completo, você sente que o fim
está próximo, e nessa hora de conexão com o ser
que vem conhecer o mundo através do seu sexo...
você empurra, e faz força, e toda a dor some, e 
todo o desespero some... e te sobra a vontade...
te sobra o desejo, de olhar nos olhos daquele ser...
que você ajudou a nascer.
A Morte padece e persevera o Nascimento.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Depois da tempestade, alguma calmaria...

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

(Drummond)