sábado, 29 de dezembro de 2012

De Mel


E é claro que ela tinha que ser assim,
tinha que ser lua cheia,
lua selvagem, lua que "ploc", explode,
lua de verão, lua de calor,
lua de dormir com as janelas abertas,
lua de acordar tarde, de não ter que trabalhar,
lua de férias... ela dura mais que o sol...
demora a ir embora, é a luz da gente agora.
Lua de sentir o cheiro da chuva das 5 na janela.
Lua de café com leite na bandeja, com torrada,
com beijinhos, com carinho, com tremelique.
Lua breguinha, sabor Gal Costa de ombros nus.
Mas por que de MEL?
Essa lua é dourada, é transparente. 
Era só olhar, mas claro, foi ele que me mostrou.
O mel é como ela, doce e lento.
Tem esse gosto de beijinho molhado de açúcar,
tem essa textura de grude, de ficar junto.
Essa lua se chama lua de mel.
E o mel é sagrado, é feito pela Mãe Natureza,
e o mel é profano em muitas imaginações afora...
nós moramos sob o mesmo teto há 5 anos, mas agora...
"Eu to morando num pedaço do céu, como o diabo gosta"
Entendi. Faz sentido. É uma brincadeira. O diabo bem que gostaria,
mas teria que pedir permissão pro padre (ou pro juiz - hahaha) 
Que loucura é a lua de mel... ontem fez uma semana.
... e a semana inteira nisso parece que foi ontem:

"Todo delito
Doce deleite
Todo desfrute
Tem permissão
TUDO QUE DÁ PRAZER
Tentação"



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Palimpsesto


Quando tudo começou eu não entendia direito as palavras. Tampouco as angústias nacionais ou mundiais. Você falava do globo, do humano, da natureza, do belo, do mau, do preço, do corrupto, da relatividade, do pouco e do muito. Você falava de coisas que eu nunca ouvi falar e eu sentia pela primeira vez a paz de quem escuta... sem falar tanto. Ah, a paz... você me mostrou a paz. Como é bom te fazer perguntas e ficar em silêncio te escutando. Eu nunca tinha pensado as coisas pelas perspectivas que você explorava. Foi como olhar a vida de um ângulo X toda uma vida... Foi você vir e eu voar, e ver a vida de 50 ângulos diferentes além do meu. E assim é o meu HOJE, além das viagens por tantas figuras, efeitos, materiais, texturas, perspectivas, inclusive a sua. Seu encantamento com os limites do real x fictício, seja na animação, seja na cabeça de um artista só, de um movimento inteiro, de artistas que perderam a sanidade... o seu questionamento sobre a sanidade, "quem avalia?"... E mais os artistas assassinados pela denúncia, e seus corpos imaterializados, eternizados... Eu te pesquisei, te li, te estudei... há muito o que entender ainda, essa busca irritante que eu insisto em fazer com tanta devoção é como a fissura de um fã, agora sou eu quem questiona "A paixão/loucura dura em média 6 meses" QUEM DISSE? QUEM DIZ? E QUEM VIVE? Folhas e capas... as editoras e as suas críticas sobre elas, os símbolos. Você quer que eu enxergue o preço dos livros, mas eu já não o fazia antes de te conhecer... O rock'n roll & o samba, a história da estética & o Wiener Werkstätte, a criação na natureza & na cidade, os motivos... a arte. O "&" é comercial. Caetano e Yardbirds. Mercedes Sosa. Led Zeppelin. Bebossa. Monk. Gil. A vida. Você. Eu. Nossos amigos. Nossas famílias. E o mundo inteiro. Uma amostra grátis disso tudo fica nessa foto, e a certeza de que bem no meio do desenrolar da arte gráfica, dos recados da arte de rua e "surrealismo Dalí" eu caso contigo gravando os 5 anos de trás e mais todos os da frente, dentro da minha alma... meu palimpsesto mais bonito. (N R, Portuguese version)



When it all began I didn’t quite understand the words. Nor the national or worldwide anguishes. You spoke of the globe, of the human being, of nature, of beauty, of evil, of price, of corruption, of relativity, of littleand of much. You spoke of things I had never heard of, and I felt for the first time the peace of one who listens… not speaking much. Oh, peace!You showed me peace. How good it feels asking you questions and keeping quiet, listening to you. I had never thought the things through the perspectives you explored. It was like looking at life from a given angle throughout a whole life… Then you came and I soared high, and saw life from fifty angles different from mine, in addition to mine. And thus it is mytoday, in addition to the travels through so many pictures, effects, materials, textures, perspectives, including yours. Your enchantment with the limits of real versus fiction, be it in animation, be it in the mind of a single artist, of a whole movement, of artists who lost sanity… your questioning about sanity, “who assesses that?”… And plus the artists murdered by denouncement, and their immaterialised, eternalised bodies… I searched you, I read you, I studied you… there is much to understand still, this annoying research that I insist in carrying out with such devotion is fan-like addiction, and now it is I who questions, “passion/madness lasts on average six months,” WHO SAID THAT? WHO SAYS THAT? AND WHO LIVES THAT? Pages and covers… publishers and your criticisms on them, the symbols. You want me to see the price of the books, but I no longer did before I met you… Rock & roll & samba, the history of aesthetics & Wiener Werkstätte, the creation within nature & within the city, the motives… art. The ampersand sands the amp, is but an “and”. Caetano and Yardbirds.Merceds Sosa. Led Zeppelin.Bebossa.Monk. Gil. Life.You. Me. Our friends.Our families.And the whole world. A free sample of all that sticks in this picture, and the certainty that right in the middle of the unfoldings of graphical art, of messages of street art and “Dalí’s surrealism” I marry you engraving the past five years and all the future ones within my soul… My most exquisite palimpsest. (Rafael Cavalcanti, English version)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Adélia Prado




"Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Arnaldo Antunes



Eu sei que eu ia te fazer feliz
Dos pés até a ponta do nariz
Da beira da orelha ao fim do mundo
Sugando o sangue de cada segundo

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Na galeria


Se numa galeria ficasse em exposição toda a minha vida,
fotos suas seriam penduradas em várias paredes, partes do seu
corpo seriam algumas das instalações mais importantes, e
numa sala climatizada separada, com uma música eterna
estaria o seu coração, dentro de um cubo de vidro.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

R.I.P. Niemeyer



"Céu de Brasília

Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim"



Traço esse que me deu nada mais, nada menos, 
que as raízes mais fortes. 

Obrigada, arquiteto. 
Não troco sua criação por nenhum outro lugar para chamar de casa. 
Agora reconhecerei seus traços nas nuvens. =)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

As três lágrimas


"Vou no banheiro."
"Tá."
Maria sentiu as 3 lágrimas descerem assim que João fechou a porta atrás dele,
a lágrima pesada que desceu dos olhos e escorreu até o travesseiro,
a lágrima que desceu da testa e parou ali mesmo, na própria testa, e a lágrima
que desceu entre as pernas esquentando tudo. Ela só conseguia ver duas coisas.
O clarão que vinha da varanda, deixando o quarto todo branco muito mais branco...
e os quadros. Existe aquela cena cliché de livro de romance de que a mulher
não gosta de ser deixada sozinha depois do sexo. Ela concluiu: MENTIRA.
Ela adorava ficar sozinha, e naquele lugar, ainda mais, ela sentindo espasmos
involuntários de cada músculo, esfriando a temperatura de seu corpo com a brisa
que entrava pela varanda, ouvindo os pássaros lá fora e ainda... ela podia então
entrar nos quadros. Os quadros do pintor dela. O pintor. O PINTOR. Ela olhava
e muitas vezes não entendia. As pessoas, inclusive ele, achavam que ela não
entendia o que significavam ali. Ela não sabia explicar, mas na verdade, o que ela
queria saber era como aquelas coisas foram parar ali. Como foram criadas no
cérebro e na alma e transportadas para fora, para aquelas telas. Lembrou de outras
vezes que dormiu naquele quarto e riu de si mesma. Ela não queria nada além de
estar ali dentro por algumas horas, de vez em quando. Nada? (ela se perguntou).
Nada mais. Certeza. Estar ali às vezes era mais do que suficiente...
João voltou.
"Sabia que eu já lambi seu quadro?"
"Quê?"
"É."
"Que isso? Por quê?"
"É que quando eu não podia dormir aqui, era o único jeito de eu sentir o seu gosto."
Ele não respondeu nada nem deixou ver a expressão sisuda em seu rosto. Foi pra varanda.
"Não me leve a mal, é que eu gosto mais dos seus desenhos do que de você." - disse, matando a sede no gargalo do vinho vagabundo.
"São pinturas."

(N.R. 05/12/12)

domingo, 2 de dezembro de 2012

{Domestiquée}


A vida antes espalhada nas ruas, nos bares, nos copos grudentos e vazios
hoje mora em lugar seguro, em coração constante e cabeça sã.
A fera da selvageria, podou suas presas e respirou fundo sentindo seu
couro subir e descer, sentou-se e decidiu que era hora de amansar.
Hoje, acordo anos depois e percebo que a vida continua espalhada, mas
dessa vez em guardanapos, papéis jogados, arrancados de caderno, 
orelhas de livro, agendas velhas, ou textos virtuais.
A vida se espalhou tão lentamente, que pensei que seria muito fácil observá-la...
ou recolher tudo, juntar tudo numa só gaveta e decidir o que faço com ela.
Ou toco fogo, ou taco no lixo, ou guardo e esqueço, só para lembrar depois.