segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Prosa ou Poesia?



Tem horas que eu sou prosa, mas tem horas que eu sou poesia. 
Mas isso não vai e vem, de um para outro, com muita frequência. 
São verdadeiras épocas da vida. 

A época de ser toda prosa é o tempo de viver fatos, um fato atrás do outro. 
Luz, câmera e ação andam sempre juntos com a minha vida de narrativa. 
É a época do tempo. O tempo caminha muito rápido e é cheio idas e vindas do
passado para o futuro possível, e a volta para o presente. É a hora de
se viver lugares, múltiplos, muitas vezes dentro do mesmo espaço, é possível 
encontrar mais de mil lugares em um mesmo parque quando a vontade
da vida é narrar. Há também os personagens, muitos e muitos seres,
às vezes eles são reais, às vezes eu não vou lembrar nada sobre eles. E eles
agem, eles vivem a ação. Não há tempo para descanso, eu me transformo
em uma máquina... uma máquina de escrever que não cessa, que não
para com o seu tac-tac frenético, e saem livros e mais livros de dentro 
de mim. Os causos e suas causas, seus modos, suas consequências...
Minha vida de repente se transforma em piada, peça teatral, drama,
crônica, muitas vezes novela, ou um conto rápido e bruto... já cheguei 
até a viver fábulas. Não importa, o destino me joga às vezes no abismo da
narrativa. A única coisa que posso fazer é viver, e depois de se viver muita
prosa, você olha as cicatrizes que a poesia te deixou na alma e se promete
nunca mais deixar de narrar a sua própria história, contemporânea e independente.

Mas existem outras épocas que intercalam com essas histórias loucas... e 
vem intensas e profundas, pausar minha vida por longos períodos onde tudo
o que se faz é sinestesia, tudo o que se faz é sentir, é viajar pelos versos dos
sonhos, dos planos, do conforto. É visitar diferentes configurações de métrica,
ajustando aqui, ajustando ali, tudo a dois, e a gente sente aromas mais fortes,
e vê cores mais nítidas, e sente pulsar as artérias cheias de um sangue vivo. 
Vezes acho elegantes as paragoges do amor e as únicas síncopes que sofro 
são pura poesia, claras como um copo d'água. O ritmo muda, fica tudo em 
câmera lenta, e um ano pode parecer uma vida ao lado da gente. A cadência,
quase que sem querer se torna uma dança, uma dança calma, com movimentos
belos, vezes alegres, vezes tristes, mas com a certeza de se estar dançando.
Tudo o que se vive aqui, tem potencial para virar belas artes, o feio, o belo, o
bom, o ruim, tudo é poesia, tudo é poema. E quando se vive poema, não se
quer mais pular do precipício nem narrar nada, e se o poema for muito muito
bom, chega-se a rezar baixinho para te deixarem ali onde se está. 



Falou e disse, Sr. Charme



"Escreve-se para preencher vazios, 
para fazer separações contra a realidade, 
 contra as circunstâncias."

(Vargas Llosa <3)

um pedacinho de um Neruda



"Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países nas lições escolares
e duas comarcas se confundem e
há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

 Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua na noite do terremoto
quando no terror da terra juntam-se
todas as raízes e ouve-se soar
o silêncio com a música do espanto."

domingo, 29 de janeiro de 2012

Canta, Marisa...


"Beija eu! Beija eu! 
Beija eu, me beija. 
Deixa... O que seja ser... 
 Então beba e receba, 
Meu corpo no seu, 
Corpo eu, no meu corpo 
Deixa! Eu me deixo... 
Anoiteça e amanheça..."

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um dos melhores que já li, acabei de lê-lo há 10 minutos. Recomendo para quem gosta de contos afiados e cortantes sobre um mundo real, sobre um mundo cão. Bruto, ácido e belo. Rubem Fonseca, não vai me decepcionar NUNCA. Nunca mesmo.

domingo, 22 de janeiro de 2012

"Le vin des amants"


"Aujourd'hui l'espace est splendide! 
 Sans mors, sans éperons, sans bride,
 Partons à cheval sur le vin 
 Pour un ciel féerique et divin! 
 Comme deux anges que torture 
 Une implacable calenture 
 Dans le bleu cristal du matin 
 Suivons le mirage lointain! 
 Mollement balancés sur l'aile 
 Du tourbillon intelligent, 
 Dans un délire parallèle, 
 Ma soeur, côte à côte nageant, 
 Nous fuirons sans repos ni trêves 
 Vers le paradis de mes rêves!" 
 (Charles Baudelaire)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

tabuleiro

é uma loucura pensar que os jogos de tabuleiro já existiam há mais de 4000 anos na Mesopotâmia... é muito tempo atrás...

Nina, no disco novo



"Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou..."
(Chico)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"Língua"



"Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(- Será que ele está no Pão de Açúcar?
- Tá craude brô
- Você e tu
- Lhe amo
- Qué queu te faço, nego?
- Bote ligeiro!
- Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
- Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
- I like to spend some time in Mozambique
- Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem."
(Caetano Veloso)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

boa noite


a grande alegria possível é a certeza de saber que em menos de cinco minutos eu vou me deitar contigo, onde você já está deitado, e eu vou relaxar o meu corpo e respirar fundo onde você provavelmente já está a sonhar, e eu vou me aquecer no mesmo cobertor que te protege dos sopros do ventilador... e em seguida vou puxar o seu braço pra mim e me deitar sobre o seu ombro e o ritmo da sua respiração vai me embalar e me adormecer, e eu vou sonhar seus sonhos e vou dormir com a certeza de que esse foi sim, mais um dia, mais um de todos os dias que eu quis viver ao seu lado. e vivi.

Florbela Espanca


"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior 
Do que os homens! 
Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 
 É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 
 É ter fome, é ter sede de Infinito! 
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... 
É condensar o mundo num só grito! 
 E é amar-te, assim, perdidamente... 
É seres alma, e sangue, e vida em mim 
E dizê-lo cantando a toda a gente!" 

 (foto: a doce poetisa lendo um livro)

domingo, 15 de janeiro de 2012

cada vez mais convencida de que domingo é meu dia preferido.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Cabeça




Minha cabeça é mais prática. Minha cabeça não navega
tão fundo sobre a realidade quanto aquelas cabeças
que conheci, principalmente as cabeças daquelas mulheres
que eu sei quem são, que dedicam a vida a entender a
cabeça dos outros.

Eu tento entender a cabeça dos meus alunos
às vezes, mas mais frequentemente de maneira a
facilitar os processos cognitivos de aquisição da
língua estrangeira, quando estou ensinando.

Já conheci algumas pessoas, na maioria das vezes mulheres,
que dedicaram suas vidas ao estudo da psicologia.
São mulheres fascinantes, taradas pelas cabeças
das pessoas, mulheres interessantes, curiosas acerca
dos problemas dos outros e de como os mecanismos
acontecem de forma a ajudar ou atrapalhar o sujeito
a lidar com suas questões.

Essa é uma profissão na qual eu penso várias vezes ao
dia quando estou na minha escola trabalhando. Nossa
escola deveria ter um psicólogo. A escola é um lugar
que depende 100%, desde a sua base até as suas ramificações,
do bom funcionamento dos relacionamentos entre seres humanos.

Os relacionamentos dos alunos com os outros alunos,
com suas famílias em relação aos seus estudos e com
seus professores (entre outros funcionários da escola)...
Os professores precisam entender e aprender a se
relacionar bem com os outros professores, com os
coordenadores, diretores, alunos, funcionários da
administração, com seus alunos, com os pais destes,
deveríamos ter o conhecimento da melhor comunicação,
mas não o temos. Com certeza alguns amigos meus seriam
contra a presença do psicólogo no ambiente escolar,
seres mais desconfiados, mais ariscos ou que simplesmente
acreditam que as pessoas tem de aprender a se relacionar
sozinhos. Mas eu sou radical nesse sentido.

Eu acredito que um psicólogo ajudaria em TODO E QUALQUER
AMBIENTE ESCOLAR. Em situações que não conseguimos nem
imaginar, em situações que talvez não fossem previstas
nas funções desse profissional. Eu sinto falta de você,
querido psicólogo, que nunca existiu na minha escola.
Eu gostaria muito que algum dia a gente trabalhasse junto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Eu sou uma pessoa que quer exatamente o que a maioria das pessoas quer...
e que gosta das coisas que a maioria das pessoas gosta.
E que sonha no futuro com as mesmas coisas que a maioria das pessoas sonha.
Talvez eu não me irrite exatamente com as mesmas coisas que irritam a
maioria das pessoas, mas se for, é só essa a diferença mesmo...
Nascemos numa era na qual é cobrado de nós sermos iguais em uns aspectos
e diferentes em outros... difícil é ser diferente das pessoas no
que a maioria acha que todo mundo tem que ser igual, e ser igual
onde se é cobrado ser diferente.

(05/01/2011)